O salário que virou promessa; a mãe, a dona de casa e a trabalhadora que a Select deixou na beira da estrada

Após os episódios no Direto da Redação, que deu voz aos ex-funcionários da Select, uma onda de depoimentos chegou à redação do Blog do Corretor e não deu para segurar a emoção diante do sofrimento desses profissionais  

Por Blog do Corretor | Da Redação 

Ela acorda cedo, arruma a casa, deixa os filhos prontos, cumpre a rotina de esposa e mãe e vai trabalhar. Umas para sustentar sozinha a família, outras para somar com o salário do marido e ajudar a fechar as contas do mês, para dar um pouco mais de dignidade aos seus. Quando o mês termina, porém, o que deveria ser o reconhecimento desse esforço virou uma promessa vazia. O salário não caiu. As contas, essas sim, chegaram. Esta é a história de uma trabalhadora que dedicou agosto inteiro à Select Saúde e, até agora, não recebeu um centavo sequer pelo serviço prestado. A gestora, ex-funcionária da operadora, desabafou com a redação do Blog do Corretor e sua indignação ecoa o sofrimento de dezenas de outros profissionais abandonados à própria sorte. 

O relato é duro e revela uma engrenagem perversa. Os colaboradores foram contratados por intermédio da AMA, empresa com CNPJ próprio (um entre tantos outros) pela qual o dono do Grupo Allcross recrutava profissionais. No dia 24 de agosto, a AMA – Apoio & Gestão Empresarial comunicou o encerramento dos contratos. Desde então, silêncio absoluto(!). Mensagens sem resposta, e-mails ignorados, ligações que ninguém atende. Parte dos trabalhadores decidiu permanecer, prestando serviços até hoje sem contrato legal; outros saíram por vontade própria; outros ainda foram dispensados sem aviso prévio. Para a maioria deles, segundo relatos da gestora que nos procurou, o mesmo desfecho: o mês inteiro trabalhado, as contas atrasadas e nenhuma satisfação.  

No meio desse jogo de empurra, a responsabilidade se dissolve. A Select joga para a AMA, a AMA joga para a Select, e o trabalhador fica no vazio, sem saber de quem cobrar. Vale lembrar o contexto societário. A Select é uma operadora de saúde que foi devolvida ao fundador da Planmed, fundada em 1991, de onde a própria Select se originou. A AMA, por sua vez, é apenas mais um CNPJ na estrutura do grupo, uma peça no tabuleiro que recruta, contrata e, quando a conta chega, desaparece. Enquanto os donos se revezam na dança das responsabilidades, quem sustenta a casa espera. 

E não é só o trabalhador que sangra. O relato da gestora expõe um descaso sistemático com o beneficiário. Segundo ela, praças seriam vendidas sem rede credenciada, promessas que a operadora supostamente sabia que não poderia cumprir, clínicas pausadas por falta de pagamento sem aviso prévio a nenhum cliente. A gestora traz ainda uma denúncia estarrecedora. Segundo ela, “haveria ainda a prática de cobrar coparticipação de quem não deveria pagá-la, mantendo a cobrança até que o beneficiário reclamasse; só então o desconto seria aplicado. Uma política silenciosa de lesar o consumidor na esperança de que ele não percebesse. Isso não é gestão, é falta de caráter empresarial”, diz ela. 

O Blog do Corretor, em contato com pessoas próximas à Select, soube que a operadora afirma que vai honrar os pagamentos. A notícia, se confirmada, é um alívio, mas insuficiente. É preciso saber quando, como e onde. Promessa não paga conta de mercado, não tira a família do vermelho, não devolve a dignidade de quem trabalhou de verdade. Esses profissionais, que deram voz à sua dor no Direto da Redação, merecem mais do que palavras; merecem o salário na conta, o respeito de um aviso claro e a certeza de que não foram apenas peças descartáveis de uma estrutura que se esconde atrás de CNPJs. A saúde digna começa por aí, pelo pagamento em dia de quem cuida dela. 

O Blog do Corretor está à disposição da Select Saúde para se pronunciar, desmentir ou confirmar as denúncias da missivista. 

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