Por Blog do Corretor | Da Redação
O mercado de saúde suplementar perdeu hoje uma de suas figuras mais emblemáticas. Milton Soldani Afonso, criador da Golden Cross, morreu aos 104 anos, e com ele se vai não apenas um empresário, mas o último elo vivo com a geração que inventou o setor no Brasil. Antes de ser o nome por trás da operadora que um dia liderou a América do Sul, Milton foi a prova viva de que a história do plano de saúde brasileiro nasceu de uma trajetória de superação, não de capital abundante.
Filho de José Afonso Filho e Genebra Soldani, cresceu em uma casa sem água encanada nem instalações sanitárias, vendendo nas ruas os doces que a mãe costureira preparava. Aos 13 anos, chegou ao Colégio Adventista Brasileiro, atual Unasp, sem recursos para pagar as mensalidades, e foi ali que fez a promessa que orientaria sua vida: se um dia pudesse, custearia os estudos de quem estivesse na mesma situação. A colportagem o formou vendedor, o Direito o formou cidadão, e a Casa Editora de Legislação, criada em 1951, o consolidou como empresário antes mesmo de ele pensar em saúde.
Em abril de 1971, aos 49 anos, deixou o emprego no Hospital Adventista Silvestre e abriu um pequeno escritório para vender planos de assistência médica. Era o começo da Golden Cross, empresa que se tornaria altamente reconhecida no País e cuja parte dos lucros, por algum tempo, foi destinada a projetos educacionais, de assistência social e de evangelização. A promessa da infância foi cumprida em escala. A Unisa, as dezenas de milhares de bolsas em instituições adventistas, os lares substitutos, o Museu de Arqueologia Bíblica e a Rede Novo Tempo de Comunicação, da qual se tornou patrono, são o testamento de um homem que entendeu o lucro como meio, nunca como fim.
Contudo, a mesma Golden Cross que o consagrou como o maior nome do setor não resistiu às mudanças do mercado, acumulou dívidas e atravessou processo de liquidação, com a carteira transferida e o contencioso tributário na casa dos bilhões. A biografia de Milton Afonso, portanto, carrega duas lições para o corretor: a primeira é que propósito e filantropia constroem marcas que atravessam décadas; a segunda, que nenhum legado empresarial sobrevive sem gestão profissionalizada e sucessão bem desenhada. O homem morreu, a história fica, e o mercado que ele ajudou a fundar segue aprendendo com ela.
Que a despedida seja à altura da trajetória. Milton Afonso não foi apenas o fundador da Golden Cross, foi o fundador de uma ideia de que saúde poderia ser um negócio com alma, e a educação, uma promessa que se cumpre mesmo quando ninguém está olhando. Aos 104 anos, deixa um legado que o mercado de planos de saúde, os milhares de estudantes que ele formou e a comunicação adventista na América do Sul jamais esquecerão. Descanse em paz, Dr. Milton.





