Por Emmanuel Ramos de Castro | Jornalista | Da Redação
Quando a Amil escolheu Roberto Justus como garoto propaganda de seu plano premium, a operadora, por meio de sua agência de publicidade, definiu premium como ostentação. Critiquei na ocasião. O figurino era o do “Shark Tank”, do empresário que tem e mostra. Justus carrega uma persona construída sobre negociação, exibição e performance capitalista. A associação com o Vorcaro, que não passa despercebida ao meu olhar, só reforça a desconexão entre o que o produto promete (proteção, segurança, acolhimento) e o que o endossador carrega (exposição, polêmica, transação). Não se subestime a qualidade técnica da peça na qual dei ênfase. Impossível não observar o roteiro, estética e produção impecáveis. Mas a escolha de casting foi estrategicamente rasa. Reitero.
A NotreDame Saúde fez o caminho inverso ao escolher Pedro Bial. Bial é jornalista. Sua autoridade não vem do patrimônio que acumulou, mas da credibilidade que construiu. Ele não “vende”, ele “recomenda”. A diferença é abissal. Quando Justus fala, você pensa “esse cara sabe fazer dinheiro”. Quando Bial fala, você pensa “esse cara sabe o que está dizendo”. Para um produto de saúde, qual dessas percepções você quer associar à sua marca? A resposta é óbvia, e a NotreDame a deu sem hesitar.
Produzido pela Bizzu, o roteiro do vídeo confirma a maturidade da leitura. Não há enumeração de rede credenciada, nem menção a quartos individuais, nem catálogo de procedimentos. O texto vende o que o plano significa, não o que o plano inclui. A linha “cuidar da saúde não é viver pensando nela, é poder pensar na vida” opera uma subversão silenciosa da lógica padrão do mercado; em vez de “compre o plano para não se preocupar com saúde”, a mensagem é “cuide da saúde para poder pensar em tudo o que não é saúde”. O plano deixa de ser o objeto do desejo e passa a ser o facilitador invisível do desejo. Isso é reposicionamento, e num mercado saturado de promessas idênticas, isso diferencia.
A direção visual reforça o texto. O big close no rosto de Bial durante toda a peça não é um acaso estético, é uma decisão estratégica. Close extremo cria vulnerabilidade e intimidade. Você não vê cenário, não vê ostentação, não vê o apartamento de cobertura. Você vê um rosto que envelhece, que tem rugas, que sorri com serenidade. Esse rosto diz: eu também sou humano, eu também preciso cuidar. Bial não está acima do espectador, está ao lado dele. O movimento da câmera das mãos postas subindo até o rosto é uma metáfora visual; a saúde começa no corpo e sobe para a consciência. O produto não aparece uma única vez como imagem, a não ser no final dos 59” que se fecha com o olhar de Bial para a câmera com um leve sorriso no rosto que ele emprestou para um produto que ele assina.
Esta não é uma análise para enaltecer a NotreDame, mas para reconhecer o que merece ser reconhecido. A escolha de Bial, o roteiro filosófico e a direção intimista compõem uma peça que lê o mercado de saúde suplementar com profundidade rara no segmento. Para o corretor, a lição serve para entender que o conceito de premium que cada operadora adota não é exercício acadêmico, é ferramenta de venda. Quem entende que a NotreDame vende cuidado e a Amil vende status consegue conversar com o cliente na língua certa. E, no fim, é isso que separa um corretor de um tirador de pedidos.





